7 de abril de 2017

Uma linda entrevista

Por Bárbara Souza *
barbarasouza.bahia@gmail.com

Colaboraram: Maria Ísis e Renata Drews

Melhor ceder logo, desde o título, à tentação do trocadilho com o nome da entrevistada. Não por comodidade, mas por sabedoria poética e deferência a Drummond. ‘Lutar com palavras é a luta mais vã’. Rendemo-nos ao lirismo para reverenciar nossa homenageada neste 7 de abril, Dia do Jornalista. A ideia da entrevista nasceu quase como uma brincadeira, um desafio profissional de fazer perguntas originais em forma e conteúdo. A editora-chefe do jornal Correio a piauiense Linda Bezerra fala ‘de um tudo’. De como seus sentidos apreendem Salvador, às suas memórias afetivas e olfativas do seu primeiro carnaval na cidade. Dos ingredientes do bom jornalismo ao único motivo que lhe faria raspar sua longa, famosa e indefectível cabeleira. No bate-papo meio psicanalítico e completamente despretensioso que tivemos durante mais de uma hora na Redação do Correio, Linda falou sobre vida, morte, loucura, amor, jornalismo, música, viagens. Escalou até os craques que comporiam sua Seleção Brasileira de futebol. Mais: revelou o que quer fazer depois de se aposentar: quer viajar pelo mundo em busca de lugares e pessoas que mantêm preservada uma originalidade ancestral. “Gostaria de registrar homens, seres humanos virgens, no sentido de serem verdadeiramente espontâneos”.  Como diria uma certa jornalista com nome de sambista: “Genial”. Com vocês, Linda Bezerra da Silva. 


                                                                                           Fotos: Maria Ísis

Você é do Piauí, mora há anos em Salvador, sempre fala sobre seu amor pela capital baiana.  Eu queria pedir que você descrevesse esse amor a partir do que seus sentidos mais amam: ou seja, qual o sabor de Salvador que você mais ama? Qual é o cheiro, a imagem, a textura e os sons que são parte desse amor pela cidade?

Linda Bezerra: Eu gosto tanto de Salvador que até – vou ser bem exagerada – que até no xixi de Salvador há em mim uma memória afetiva. Por exemplo, quando eu cheguei aqui, passei uns cinco dias no carnaval de Salvador. Eu não ia pra casa. Passei os cinco dias entre o Campo Grande e a (praça) Castro Alves. E eu me lembro até hoje daquele cheiro de xixi do carnaval. Não é que eu esteja celebrando o xixi, o descuido de Salvador de fazer xixi na rua. Não é isso. O que eu estou dizendo é: essa cidade, esse xixi que maltrata Salvador é também um aspecto da cidade. Porque Salvador ela tem uma beleza natural e ela recebe essa atenção e esse cuidado do seu povo, e esse descuidado também. Salvador é um cheiro de xixi. Salvador tem um povo...acho que o sentido que mais me fascina é o meu olhar...é o meu olhar.  Porque eu acho que Salvador sem esse povo que habita em Salvador não seria a mesma cidade. Eu fiquei muito feliz com o resultado da Copa do Mundo (em 2014), da impressão que os turistas tiveram de Salvador na Copa do Mundo. Ninguém falou de pontos turísticos. O que encantou a ‘turistada’ que esteve aqui foi o povo de Salvador! De fato, me encanta ir para uma festa de largo. Mas não é o pagode, não é nem a procissão, mas é quem faz a procissão. É o povo de Salvador que me encanta. Eu acho inclusive que esse povo está um pouco desaparecendo. Se você for no shopping, você vê um mooonte de gente vestida igual, um mooonte de gente parecidinha assim. Então, você vai na Feira de São Joaquim, você ainda encontra esse povo; você vai na Sete Portas, você ainda encontra esse povo; na Barroquinha, na Piedade, você encontra esse povo,  sabe? Acho que o sentido mais me aguça Salvador é o olhar, mas eu amo Salvador em todos os aspectos: o cheiro, as cores...Eu acho que de fato, a melhor forma de apreender Salvador é aguçando os sentidos: o olfato, o olhar, o tato, sabe? Salvador tem uma textura, tem um som, tem um jeito...(pausa). Por exemplo, eu fui a pouquíssimos lugares no mundo. Um deles,por exemplo, foi Paris. Aí, o povo falava “ah, a cidade luz, não-sei-o-que,  nãnãnã”. Mas quando eu cheguei lá, o que mais me encantou...claro que a história da cidade é maravilhosa e tal. Mas havia uma aura, uma alma na cidade, uma coisa mais imaterial, que não está no livro. Como é espiritual, eu acho que a língua não traduz. É mais um sentimento. Eu acho que aqui em Salvador, essa coisa imaterial o povo traduz com seu jeito.

Você veio pra cá com quantos anos?

Linda Bezerra: Pra Salvador, eu vim em 88. Pra a Bahia, eu vim em 81. Eu tinha 16 anos e eu fiquei em Barreiras, que é Oeste, é outra coisa. Não é Recôncavo, não é Salvador.

Então, quando você tinha 20 anos, já estava em Salvador?

Linda Bezerra: Não, eu vim para cá com 23 anos. Agora eu estou com 51.

Tem um livro de João Falcão, “A dona da história”, que virou filme e peça de teatro, e que é um encontro inusitado entre uma mulher de seus 50 anos com a versão dela aos 20 anos. Se você tivesse a chance de conversar com a Linda Bezerra de 20 anos, você daria algum conselho especial a ela? E mais: tem algum ímpeto, alguma coisa que vicejava naquela época e que você gostaria de resgatar?

Linda Bezerra: Eu diria a ela: viaje pelo mundo e descubra sons, sabores. Eu volto à questão dos sentidos...eu acho que você foi muito feliz com a pergunta dos sentidos. Eu acho que o ser humano não pode abrir mão dos sentidos, em todos os aspectos: do olhar, do toque, do olfato, do paladar. Acho que a gente precisa apreender o mundo pelos sentidos e por outros, porque há. O sentido do sentir, de sentir pela alma, de uma sensibilidade que é intangível. E eu dou esse conselho para a (Linda) de 51 anos também. E vou dar para a de 56 e para a de 60! Certamente, é preciso viajar pelo mundo! Eu tive contato com um alto executivo da Agenda Bahia e ele citou uma coisa...que se derem para um americano duas horas para ele almoçar, ele vai se sentir ofendido. Porque o americano é movimento, ele inventou o drive-thru. Agora, se você tirar as duas horas do francês, para ele almoçar e degustar o vinho, e degustar a comida, você mata o francês.  Eu realmente diria para a menina de vinte anos: ande! E conheça o homem. Eu sou encantada pela Humanidade!

Você vai fazer isso?

Linda Bezerra: Eu tenho um projeto pessoal de registrar, assim como fez o maravilhoso fotógrafo Sebastião Salgado, o mundo original. Ele fez acho que é “a origem” o nome do livro, enfim, mas é um livro que registrou os lugares que ainda estão quase virgens, a natureza virgem. Eu gostaria de registrar homens, seres humanos virgens, no sentido de ser verdadeiramente espontâneos, de ser ele mesmo. É claro que todo mundo de alguma forma se transforma, é pautado. Mas em alguns ainda resta um jeito que ainda não foi muito burilado. Eu queria viajar pelo mundo atrás dessas pessoas que ainda guardam um jeito particular de ser. Pessoas que guardam uma particularidade que possa contar: olha, um dia a humanidade foi assim. Veja e eu não estou lamentando que estamos mudando. Não! Eu queria era guardar essa humanidade, registrar essa humanidade. A humanidade tinha algo assim. Eu gosto tanto do ser humano que talvez um dia esse resgate, esse registro fosse útil para mostrar “olha a humanidade já foi assim”. É um projeto pessoal daqueles que pode não ser realizado, mas o fato de eu pensar nele já me alimenta bastante

Se você tivesse a oportunidade de entrevistar sentimentos e fatos da vida, por exemplo, qual desses três personagens você escolheria para fazer um perfil: o amor, a morte ou a loucura?

Linda Bezerra: Puta que pariu! Eu amaria fazer dos três! A morte é uma das coisas que mais me impressionam na vida. O amor, o amor...o amor é o amor, é o que move tudo. A loucura me impressiona porque é um lugar onde nós não chegamos, eu digo: nós, aqui. Ficando no lugar de lúcidos...porque isso é uma maluquice. Porque é uma questão de lugares. Porque eu –digo eu, a Humanidade – estou nesse lugar que dizem ser o da lucidez e fulano está no lugar da loucura. Mas, para eu não dar uma de libriana indecisa, eu escolho a morte. Acho que verdadeiramente a morte é a única certeza que o homem tem na vida. A loucura não tem certeza, o amor não tem certeza.

A morte é de Exatas, né?...

Linda Bezerra: Isso! A morte é de Exatas. A sorte, talvez, de quem reflete sobre a morte é não saber o dia que vai morrer. Esses dias eu tive um diálogo com meu neto, Caio, que me disse: “minha avó, você gostaria de saber o dia que vai morrer?”. E eu disse: e você? Eu tive que devolver a pergunta...ia responder pra quê?...(risos) Ele disse: “eu gostaria porque se eu souber que vou morrer, até lá eu decido o que eu quero fazer”. Eu não sei se eu quero saber. Eu não sei...Nesse momento, eu não quero saber. Definitivamente, não quero. A morte é, de fato, o personagem que eu escolho para fazer o perfil. E eu ia dizer para ela: que sacana que você é, que escrota! Eu me debato com amigos queridos que já superaram essa discussão, que já estão na quinta dimensão, já estão nos universos paralelos. Eu realmente sou muito, mas muito, muito, muito pequena nesse assunto. Acho uma escrotidão que a humanidade tenha que se deparar com esse paradoxo vida- morte, com esse racha, sabe? Eu ia entrevistar ela: “que porra é essa, velho?” Porque quem é que tem o poder? Quem tem a última palavra?  É a morte. Tem uma música  de Gilberto Gil nesse último show, nessa turnê com Caetano Veloso, que é simplesmente genial. Eu acho que Gil fez aquilo para dar uma resposta já a si mesmo. Pouca gente ouviu a música. A música é terrível. Ele diz o seguinte: “eu não tenho medo da morte, eu tenho medo de morrer”. Ele tem medo da passagem. Porque, depois da passagem, já foi. Eu gostaria de mostrar para vocês (começa a buscar no celular). Não pode passar despercebida.


Não ouvi ainda...

Linda Bezerra: Vocês vão ter que ouvir. Vocês provocaram, agora vão ouvir! (risos)

Se fôssemos pautar matérias de jornalismo de dados biográficos, digamos, as estatísticas ‘dos amores de Linda Bezerra’ renderiam uma boa série de reportagens? Se a gente fosse fazer pautas sobre ‘os amores de Linda Bezerra’, daria uma série de reportagens, uma matéria ou só uma notinha?

Linda Bezerra: Renderia livros, compêndios! Até porque eu não estou enquadrando amores, apenas amores...Eu sou uma pessoa que ama. Eu tenho amigos queridos. Como a minha família biológica foi um processo, é um processo, então ao longo da vida, e nos lugares que estive, fui juntando amores. Eu considero você (Bárbara) um amor. Eu considero Maria (Ísis) um amor. Renatinha (Renata Drews) ainda tá...(risos)

Um amorzinho?... (risos)

Linda Bezerra: Um amorzinho. (risos) Então, eu fui reunindo amores por onde eu passei. Eu já me desliguei dessa coisa do tempo. Ah, mas a gente só se encontra no trabalho? Foda-se, sabe? Acho que com o tempo escasso, com todas as atividades que nós temos, e tempos, e amores, e atenções, a gente não consegue fazer esses encontros sistemáticos. Não acho que amor é só presença. Amor é sentimento. Eu calculo o amor pelo que eu sinto pelas pessoas. E veja, veja (enfática): o cálculo da profundidade sai de mim. Às vezes, eu mantenho amor por pessoas que eu nem sei se me amam. Nem sei se me amam! Mas, enfim, de fato o amor tem que ser alimentado, essa coisa toda.  Quem ouviu Jane e Erondi, “o amor tem que ser alimentado em pequenas coisas e nós já não temos” (gargalhada).  Mas, eu necessariamente não preciso que seja essa via dupla, igual. Tanto que meus casamentos, de dividir casa, escovas, cama, eu só saí quando eu quis sair. Eu fiquei dois anos percebendo que o sentimento do lado de lá já não era o mesmo, mas eu continuei. Eu queria, digamos assim, gastar em mim para sair com menos bagagem. Eu sou amiga de todos os meus relacionamentos. Os que não querem ser meus amigos, paciência. Você pode deixar de dividir cama, mas não deixa de amar assim a pessoa. 

Eu me arvoraria a dizer que dois dos seus amores são a gastronomia e o jornalismo. Quero fazer uma mistura das duas coisas: qual seria o cardápio de um bom banquete jornalístico?

 Linda Bezerra: Seria ter informações importantes para as pessoas, sempre. O melhor banquete é aquele que é servido para o leitor. O banquete jornalístico tem que ser servido para o leitor. O jornalista é um serviçal do leitor. Partindo dessa premissa básica e primordial: é preciso se colocar no lugar do leitor para saber o que ele quer. O jornalista, para servir um bom banquete, ele precisa ser um bom leitor antes. Sendo um bom leitor, o jornalista saberá o que quer comer e, portanto, saberá o que servir para o leitor.

Ele vai saber do que o leitor tem fome...

Linda Bezerra: Exatamente. Do que eu, como leitora, tenho fome? No meu banquete teria: informações importantes, relevantes para as pessoas, mas principalmente teria histórias que não são devidamente contadas, e bem contadas. Eu acho que o jornalista está perdendo a capacidade de se debruçar sobre histórias únicas, histórias particulares. Porque, veja, não é só o aumento do salário mínimo que transforma a vida das pessoas. O banquete do jornalista é que ele traga histórias que transformem, que operem transformações na vida das pessoas, que te toque, te faça refletir sobre o mundo.



O fato de que a revelação feita recentemente (a entrevista foi feita em novembro de 2016) pela jornalista Fernanda Gentil sobre estar namorando uma mulher virar notícia e ter tido tanta repercussão na mídia contribui para o avanço do respeito à diversidade ou revela o quanto ainda estamos atrasados nesse aspecto?

Linda Bezerra: Eu acho que revela as duas coisas. Acho que revela que ainda precisamos que pessoas deem esse tipo de depoimento porque chamam atenção, tiram da pauta do assombro determinados assuntos, portanto, revela atraso. Poderia ser algo muito mais natural. Eu não vejo nenhum problema que as pessoas falem sobre sua vida pessoal, desde que elas decidam fazer isso. Não acho que as pessoas são obrigadas a falar de sua vida particular, que é uma questão de foro íntimo. Cada personalidade deve decidir o que falar sobre sua vida. Isso é uma coisa que tem que ser respeitada! Se Fernanda Gentil, ok para ela, é uma decisão dela. Agora, se eu decidir não falar da minha vida, é uma decisão minha. Acho que uma lei básica para a humanidade é: o indivíduo tem que ter a supremacia sobre suas decisões, sobre seus atos, seus afazeres. Claro: desde que não vá ferir o outro. Porque aí já sai do individual. Eu acho, e acho mesmo – não estou fazendo um discurso – que se o indivíduo fizesse suas mudanças individuais, a humanidade seria melhor. Porque reflete no coletivo que você, no individual, que você tome suas decisões e que não resvale no outro, não interfira na vida do outro. Se eu separasse meu lixo, isso refletiria no coletivo, sabe? Eu não acredito em mudança que não parta da pessoa. Eu não acredito que prefeitura mude, que governo mude, eu acho que o indivíduo é que tem que ser transformado. Agora, quando é que prefeitura muda, que governo muda? É quando proporciona as ferramentas para eu mudar: educação, saúde etc.

Por falar em coletivo, você conseguiria escalar 11 jogadores para uma Seleção Brasileira, pode ser atemporal, com os nomes que vierem à sua mente?

Linda Bezerra: Não consigo, não, porque sou uma pessoa que não lembro nomes. Mas eu conseguiria listar nomes que eu colocaria na minha seleção. Eu colocaria Pelé, embora seja uma figura muito desconectada, né? Pelé me irrita um pouco porque ele é desconectado de onde ele veio. Eu não gosto que as pessoas se desliguem do seu ambiente social. Acho isso um defeito humano. Mas, tecnicamente falando, eu colocaria Pelé. Eu colocaria Neymar, sim! Certamente, eu colocaria Neymar. O melhor de todos, o que se casou com Elza Soares: Garrincha. Se eu te listar aqui cinco e faltarem seis nomes, eu colocaria seis garrinchas. Eu prefiro uma Seleção que jogue artisticamente. Não nego a tecnologia, mas eu gostaria que essa seleção tivesse graça no jogar, a perna que rouba a bola, sabe? Não é saudosismo, é a graça. Eu colocaria esse menino novo, Gabriel Jesus. Goleiro seria Taffarel, eu tenho uma memória afetiva de Taffarel. O resto eu completaria com Garrinchas.

A gente que convive um pouco com você percebe que seu cabelo é sempre muito bem cuidado, cheio de viço, cheiroso, o que deve dar muito trabalho...

Linda Bezerra: Muuuuito, muitíssimo trabalho! (risos)


Pois é...(risos) Isso nos leva a imaginar todos os cuidados e o prazer que você tem em mantê-los. Seu cabelo comprido e grisalho é uma marca forte da sua imagem e personalidade. Se você fosse fazer uma promessa para alcançar uma graça, que tipo de graça faria você prometer raspar o cabelo ou cortar bem curtinho?

Linda Bezerra: Que uma pessoa da minha família, que tem disfunção emocional, ficasse boa. Esse é um sacrifício que eu faria por esse motivo. (Com a voz embargada) Por nenhum outro. O cabelo pra mim é uma identidade. E uma identidade voltada para uma originalidade que eu persigo. E para uma liberdade de expressão que eu persigo. E eu estou falando de uma liberdade de expressão...essa liberdade que se diminui ao  que você trabalha numa empresa que o dono é político. Acho isso é uma ‘bobageira’.  Vocês conhecem minha opinião sobre isso. Isso é trabalho. Estou falando individualmente da liberdade de querer ser o que se é, de querer ser ou de querer chegar  no que se quer ser. Então, o cabelo representa...não pintar o cabelo: isso é uma decisão dos 12 anos, eu tenho uma mecha branca no cabelo desde os meus 12 anos. Não pintar o cabelo não é simplesmente uma rebeldia contra a indústria da tintura, não é nada disso! É simplesmente uma tentativa uma busca de ser o que se é. De tentar ser espontânea, ser original, ser eu mesma. De tentar me livrar de máscaras. Vai dizer que eu não tenho? Tenho milhares de máscaras. Mas derrubá-las é melhor para mim. Outra coisa: eu sou uma pessoa pragmática, uma pessoa prática. Por exemplo: eu amo batom, eu amo pintar a unha. Mas quem é que me vê de unha pintada e batom? Porque é preciso um ritual. Não é que eu não goste de ritual. Adoro rituais. Mas tem alguns que eu acho que me levam tempo demais. Eu, inclusive, durmo muito pouco. Durmo cinco horas. Porque acho que dormir é perda de tempo. Mesmo. Sinceramente. Aí eu sei que estou perdendo tempo porque quem dorme pouco vai morrer mais rápido, mas vou morrer de qualquer jeito. Mas acho mesmo que às vezes você perde tempo com coisas que só vão lhe atrapalhar. Imagine toda semana pintar o cabelo porque apareceu um fio branco. Estou falando do ponto de vista prático. Acho que você assume a sua personalidade, você fica bonita. Descobri isso também. A beleza passa por isso. Eu me acho bonita, acho mesmo. Óbvio que se eu me olhar no espelho e começar a procurar as imperfeições e tal. Mas de fato eu me acho bonita, me acho bonita mesmo. Eu não estou falando de padrão de beleza, da miss, das Giseles. Estou falando de uma beleza que eu sinto, é um sentimento. Agora, me cuido para que esse sentimento não vire uma firula, me cuido, tento me cuidar e tal. Mas de fato, eu quero..que saia pelos meus poros..eu mesma.  Acho que é identidade, é beleza, é originalidade ser eu mesma. Tanto que eu poderia ter passado um batom para essa porra dessa entrevista (risos), mas nem me lembrei disso, sabe?  

Você tem um lado, assim, Lulu Santos, você vê a vida melhor no futuro?

Linda Bezerra: Puta-merda, eu tenho! Às vezes, isso é tão ruim. Eu preciso viver mais no presente. Eu preciso viver realmente (!) mais no presente. Eu sempre acho que vou andar por aí, aguçar mais meus sentidos, quando eu me aposentar (Nota: Linda concedeu a entrevista em novembro de 2016). Mas, poxa, sejamos realistas, né? Falamos da morte...O que é mais presente? É a morte. A morte é mais presente que a vida.

A sua fé te ajuda a se preparar para esse “morrer” que Gilberto Gil falou, na música?

Linda Bezerra: Eu tenho, mas ainda não encontrei a faceta da fé que vai me ajudar nisso.

Qual foi a faceta da fé que você encontrou?

Linda Bezerra: Para viver! Porque viver é tão difícil quanto morrer! Não se engane, não. Viver é muito difícil, é muito difícil. Eu olho para as pessoas que têm depressão e não conseguem se levantar da cama. Você acha que não tem dias que a gente e não tem vontade nenhuma de levantar da cama? Viver é muito difícil. A minha fé me ajuda a viver. A morrer não está ajudando ainda. Eu já fui no espiritismo. Eu bebo vegetal. Já me estirada, já me vi velhiiinha no vegetal. Aquela visão poderia, sim, me ajudar a dizer “poxa, você vai viver pra caramba”. Eu gosto de viver, eu gosto do mundo, eu adoro as pessoas, eu amo o que o ser humano criou. Se eu pudesse escolher, eu queria ser Renascentista. Eu queria ser (Leonardo) Da Vinci. Linda, você quer ser quem? Eu quero ser Da Vinci. Eu quero ser alguém que tem conhecimento. Não o conhecimento desse mundo, do que as pessoas criaram. Por isso que eu não tenho preconceito com as redes sociais. Eu não vou discutir com os robôs que vão surgir depois de nós. De jeito nenhum. Certamente eu vou achar graça e beleza, se eu aqui estiver. Eu não sou uma pessoa que lamenta, que gosta de ficar lamentando as perdas. Uma vez eu escrevi um artigo sobre o número daquela comida japonesa que parece um cone que virou moda aqui. Temaki. Eu escrevi que era capaz de eu encontrar dez temakerias no Rio Vermelho e dois acarajés. Mas eu não tava lamentando a chegada da temakeria. Eu tava lamentando era o sumiço do acarajé!

Está vendo aí? Nem doeu?...

Linda Bezerra: Eu espero que não tenha doído para vocês. Agora, espera aí que eu vou procurar a música de Gil pelo Youtube, porque eu não sou Alice. Porque vocês vão ouvir! (risos) . 

* Bárbara Souza é jornalista e coordenadora do curso de Jornalismo da Faculdade Social da Bahia (FSBA)

19 de setembro de 2016

Programa A Parada é Arte

Teatro, cinema, museu, música. Opções é que não faltam para seu lazer em Salvador.

Nesta edição, o programa fala sobre as exposições Jardins Urbanos e Poteiro Pop, além do espetáculo O Corrupto.



Programa Se Liga, Cidadão

Informações atuais sobre o fim do Ciência sem Fronteiras, a greve dos bancários e sobre como concorrer a uma bolsa de estudo no valor de 5 mil euros.

Esteja sempre bem informado com o Se Liga, Cidadão!



Programa Ciência News

Dicas de saúde, tecnologia e curiosidades científicas. Está no ar mais uma edição do Ciência News!






13 de setembro de 2016

Exposição 'Êxodos' está em cartaz na capital do frevo

Texto: Caroline Rodrigues


Após temporada de quase dois meses em Salvador, a exposição “Êxodos”, do fotógrafo mineiro Sebastião Ribeiro Salgado, está cartaz na Caixa Cultural de Recife (Pernambuco). A cidade, conhecida pelo colorido do carnavais e alegria do frevo, recebe as imagens, em preto e branco (PB), que têm como tema a imigração em mais de 40 países, visitados pelo artista ao longo de seis meses. Gratuita, a visita à mostra pode ser feita até o dia 15 de outubro, de terça a domingo, das 10h às 20h. 

A opção estética de Sebastião Salgado pelo PB tem como propósito a interação com o espectador. Segundo o artista, cada apreciador preenche as imagens com as cores imaginadas, construindo de um jeito único cada cena retratada. O professor doutor em fotografia, Paulo Munhoz, aprecia a escolha de Salgado e diz que, sem as cores, a mensagem trazida pela cena fotografada torna-se mais objetiva e impactante. 

A exposição foi dividida em cinco temáticas principais: Luta pela Terra; Retratos de Crianças; Megacidades; Refugiados e Migrados e,por fim, África. Para cada tema, a exposição conta com um texto introdutório, no qual é apresentado o cenário político-econômico na época do registro fotográfico. As cenas mostram, no geral, a luta pela sobrevivência em situações extremas. Em formato ‘‘portret’’, as imagens das crianças revelam as diferentes faces da infância dos filhos dos imigrantes. Em “Luta pela Terra”, o fotógrafo observou o êxodo de trabalhadores rurais em busca de um lugar, onde pudessem plantar e viver. 

A sessão “Megacidades” exibe fotos de construções improvisadas pelos imigrantes e nítidas alterações paisagistas nas cidades ocupadas por eles. “Refugiados e Migrados” é a sessão, na qual Salgado se dedicou a mostrar as condições de vida e modos de sobrevivência dos migrantes e refugiados. Já em “África”, o fotógrafo mostra comunidades que desafiam o tênue limite entre a vida e a morte, em nome da sobrevivência. Segundo a assessoria de imprensa da Caixa Cultural de Recife, é uma honra sediar a exposição de Salgado e atividades especiais serão realizadas para estimular à visitação.

Abaixo, uma entrevista com o gerente da Caixa Cultural de Recife, Elton Rodrigues, que fala sobre a expectativa de receber a exposição.





12 de setembro de 2016

Programa Adrenalina

Um programa de rádio voltado para os esportes radicais com dicas e curiosidades. Isso e muito mais você encontra na primeira edição do programa Adrenalina, produzido pelos alunos da Faculdade Social da Bahia.

Aperte o play!






26 de agosto de 2016

Medalhas com gosto de dendê!

Texto: Filipe Alcantara

Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro foram um sucesso! A despeito de todo o pessimismo que rondava o evento nos meses que o precederam, tudo ocorreu sem nenhuma grande anormalidade, tanto fora quanto dentro dos ginásios e arenas esportivas. Porém, o receio de que as coisas não dessem certo era justificado. O país está mergulhado em uma crise política e econômica. Além disso, havia entre os possíveis viajantes o medo da violência urbana, do terrorismo, do vírus zika e até a poluição na Baía da Guanabara colocou em dúvida se a capital fluminense poderia ser sede do maior espetáculo do planeta.

Agora, passados alguns dias da Cerimônia de Encerramento, podemos afirmar que as primeiras Olímpiadas da América do Sul atingiram seu objetivo. Apesar da morte de um agente da Força Nacional que entrou em uma favela sem querer, dos casos de roubo inclusive dentro da Vila Olímpica, e da piscina em que a água de um dia para o outro ficou verde, os resultados esportivos, com a quebra de 19 recordes mundiais, comprovaram que os jogos do Rio entraram para a história. Os atletas brasileiros que o digam: terminamos em 13º no quadro de medalhas (a nossa melhor posição já alcançada), com 7 medalhas de ouro (nosso recorde em uma só edição, superando as 5 medalhas douradas em Atenas 2004), e um total de 19 medalhas (também algo inédito, pois o máximo que havíamos conseguido foram 17 em Londres há 4 anos). E os baianos tiveram participações decisivas nesse grande resultado.

O boxeador Robson Conceição, 27 anos, nascido e criado no bairro de Boa Vista de São Caetano, conquistou o primeiro ouro do Brasil no boxe olímpico de forma inquestionável. A façanha foi tanta que ele desfilou em carro aberto pelas ruas de Salvador e foi recebido por uma multidão no seu bairro. A outra medalha de ouro da Bahia também é de um soteropolitano, só que em um esporte coletivo. O meio-campo Walace, 21 anos, foi titular durante toda a campanha da seleção brasileira de futebol que venceu a final no Maracanã. Jogador do Grêmio, ele passou pelas divisões de base do Bahia, mas não foi aproveitado.



Mas o grande destaque do estado nesses jogos foi o canoísta Isaquias Queiroz, 22 anos, que em sua primeira Olimpíada conseguiu 3 medalhas (duas de prata e uma de bronze), se tornando o maior medalhista olímpico do Brasil em uma só edição. Natural de Ubaitaba (quem no idioma Tupi significa Terra das Canoas), Isaquias tem tudo para superar os velejadores Robert Scheidt e Torben Grael, que possuem 5 medalhas em 6 participações cada, e virar o brasileiro com mais medalhas na história.



O quarto baiano a ganhar uma medalha no Rio foi o também canoísta Erlon Silva, 25 anos, que conquistou a prata junto com Isaquias na canoa dupla - 1000 metros. Nascido em Ubatã, ele já havia participado dos jogos de Londres em 2012, quando ficou longe do pódio. 

Poderia ter sido ainda melhor...

Mesmo com esse bom resultado, a Bahia tinha potencial para conquistar mais medalhas. Na maratona aquática tanto Ana Marcela Cunha, 24 anos, quanto Allan do Carmo, 27 anos, ambos nascidos em Salvador, eram favoritos à medalha. Porém, os nadadores não foram bem nas águas do Rio e terminaram em 10º e 17º lugar, respectivamente. A Ana, inclusive, é bicampeã mundial na categoria. Fica agora a esperança que em Tóquio eles consigam o tão sonhado pódio.

O mesmo não pode ser dito para a jogadora de futebol Formiga, 38 anos, que é a única atleta do futebol a participar de 6 Olimpíadas. Depois de bater na trave em 2004 e 2008 ao ficar com a prata, a seleção feminina tinha o apoio da torcida para conquistar o ouro inédito. Porém, foram eliminadas nas semifinais pela Suécia, e na disputa pelo bronze ainda perderam para o Canadá. Infelizmente esta deve ter sido a última chance da Miraildes (nome verdadeiro da Formiga) vencer o torneio olímpico. Mas a falta da medalha dourada não diminui em nada a carreira vitoriosa e longeva dessa grande soteropolitana.



Outra natural de Salvador que tinha expectativa de ganhar medalha era a boxeadora Adriana Araújo, 34 anos, que já tem uma de bronze no currículo, conquistada há 4 anos. Mas ao perder e ser eliminada em sua primeira luta nos jogos, ela ficou longe de repetir o feito de Londres.

No dia 24 de julho de 2020 terão início os Jogos Olímpicos de Tóquio. Tomara que a mistura “sushi com dendê” renda mais frutos para a Bahia e o Brasil. Que novos atletas surjam para nos representar e alcançar o pódio, e que os baianos medalhistas possam repetir o bom desempenho de agora na terra do sol nascente. Para isso, obviamente, é necessário investimento do poder público no desenvolvimento e treinamento dos nossos representantes pois, talento, temos de sobra. Vamos torcer!

SUS não oferece vacina contra a dengue

A dose custa 400 reais na rede privada de laboratórios


Texto: Newton Soares


A vacina contra a dengue (dengvaxia), indicada para pessoas entre 9 e 45 anos, já pode ser encontrada nos principias laboratórios particulares de Salvador com o valor médio de R$400 reais a primeira dose. O tratamento para uma possível imunização precisa ser feito com três doses e intervalo de seis meses entre as aplicações, que são realizadas com hora marcada.

Produzido pela empresa francesa Sanofi Pasteur, dedicada à fabricação de vacinas para uso humano, o imunizante deveria chegar ao mercado com valores entre R$ 132,76 e R$ 138,53 acrescidos das variações do ICMS de cada estado da federação. Essa foi a definição do Comitê Técnico Executivo da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED).

Em janeiro de 2016, foram registrados 1.345.286 casos prováveis de dengue no país, segundo dados da secretária de vigilância e saúde do Ministério da Saúde. Em muitas regiões do Brasil, o número de pessoas infectadas pelo mosquito Aedes aegypti superou 300 casos/100mil habitantes. Nessa situação, a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera estado de calamidade pública, mas o Sistema Único de Saúde (SUS), a princípio, não vai disponibilizar a vacina à população. O único estado brasileiro que adquiriu a dengvaxia foi o Paraná, que comprou um lote de 500 mil doses. A dona de casa, Clemilda Santana, 47, considera um “absurdo” o fato do governo não liberar a vacina pelo SUS. “É lamentável”, resume indignada.

O infectologista Fernando Badaró alerta que os efeitos colaterais dessa vacina ainda não são todos conhecidos. “É preciso uma disseminação da vacinação na população em geral. Em estudos controlados, tem poucos efeitos colaterais”, explica. Ainda segundo Badaró, a dengvaxia dá uma proteção, contra os quatro sorotipos do mosquito da dengue de 52% a 66%, entretanto o médico defende a vacinação, por conta dos altos índices da doença no Brasil. “A imunização vai reduzir a incidência da doença. Então, mesmo com a baixa proteção, é necessário tomar a vacina para diminuir a possibilidade da população em geral contrair o vírus”, afirma.

Desde ano passado a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) liberou a vacina no país. O professor de designer, Marcelo Teixeira, 48, considera ilegal a restrição da vacina à rede privada: “Eu acho isso um crime! Qualquer recurso de saúde deveria ser disponibilizado gratuitamente, a saúde da população não pode ser jogada como alvo de restrição”, protesta.

12 de agosto de 2016

Pacientes e ex-pacientes de hospitais psiquiátricos chamam atenção para a importância do Movimento da Luta Antimanicomial

Caros seguidoras e seguidoras da ABAN,

Em 2016, o Movimento da Luta Antimanicomial celebra os 15 anos da Lei da Reforma Psiquiátrica (nº. 10.216/2001). A data simbólica provoca reflexões, que são instigadas por obras como o documentário A Loucura entre Nós, da cineasta Fernanda Vareille, que estreou neste mês de agosto em Salvador, e o filme Nize, o Coração da Loucura, de Roberto Berliner e estrelado por Glória Pires, que mostra a batalha de uma médica para mudar os rumos das prescrições de eletrochoque, insulinoterapia e lobotomia. Os estilhaços de vidas “quebradas” por tratamentos desumanos e ineficazes chegam até nós através dos relatos de dor e sofrimento de pacientes e familiares. Embora não seja novidade o uso terapêutico da arte em espaço clínico, sempre vale a pena relembrar o quanto o processo artístico transforma, por meio da expressão e da produção de saber.

A luta de pessoas como Nize ecoa nos dias atuais e traz a esperança de um novo olhar para o que não se encaixa nos padrões de normatividade. Cleya Oliveira, repórter da ABAN, conversou com o ator e produtor do espetáculo Quem está Aí?, que deixou saudades após ser apresentado no Teatro ISBA, no semestre passado. O elenco da peça é formado por pacientes e ex-pacientes de hospitais psiquiátricos, o que torna o espetáculo ainda mais especial. Para relembrar e torcer por uma nova apresentação, segue o texto!

Foto: Faculdade Social da Bahia

“Somente gente como a gente pode nos curar”


Texto: Cleya Oliveira

Diagnosticado com esquizofrenia e dupla personalidade, José Raimundo dos Santos, 48, é ator e paciente do Centro de Atendimento Psicossocial (Caps) do bairro da Ribeira, em Salvador. Para ele, a arte transforma e devolve a integridade. “Através dela, temos a organização como pessoa”, explica. Bem humorado e sagaz, ele faz uma relação entre seu quadro clínico e a dramaturgia. “A nossa vida é um teatro. Hoje, estamos de um jeito, amanhã, de outro. Às vezes, viramos outra pessoa”, reflete.

Integrante do grupo Insênicos, que em parceria com o Bando Flores da Massa levou ao palco do teatro ISBA o espetáculo Quem está Aí?, José Raimundo quebra estereótipos ao falar e encenar sobre sua própria vida. Para a psicóloga e diretora musical do grupo, Renata Berenstein, que também é atriz, o objetivo do trabalho é desmitificar a condição do doente mental e aproximar o público da sua realidade. Tanto o Insênicos quanto o Bando Flores da Massa são formados por pacientes e ex-pacientes que estiveram internados em hospitais psiquiátricos e decidiram expor suas experiências, através das linguagens do teatro, música, vídeo e poesia.

Foto: Faculdade Social da Bahia

A jornalista e estudante de psicologia da Faculdade Social da Bahia (FSBA), Daphne Carrera, que também participou do processo de organização do espetáculo, apresentado ao público em maio, não disfarça a emoção ao ver trajetórias como a de José em cena. “Esse tema é invisível para a sociedade, o objetivo é tornar a 'loucura' visível”, expõe. Ela alerta para o fato de que muitas pessoas não conhecem a verdadeira realidade do manicômio, nem mesmo os familiares dos pacientes, que, muitas vezes, internam um parente por achar que é a melhor solução quando, na verdade, estão prejudicando-o. O Movimento da Luta Antimanicomial é caracterizado pela reivindicação de que a pessoa com sofrimento mental tenha o direito de ser livre, apesar da sua condição. A motivação principal é combater as abordagens clínicas que preveem o isolamento do paciente, uso excessivo de remédios e, por vezes, a prática da violência.

Sensível à causa do movimento, a também estudante de psicologia da FSBA, Thaís Nascimento, relata que participar de uma iniciativa como a peça Quem está Aí? foi uma experiência esclarecedora e motivacional. “As pessoas ainda são muito preconceituosas e não se colocam no lugar do outro. A gente precisa conhecer mais a beleza do outro”, aconselha Thaís. A futura psicóloga percebe que o trabalho de socializar o doente mental quebra barreiras e traz benefícios para todos os envolvidos no processo.

Foto: Faculdade Social da Bahia

Saindo dos palco e das coxias e indo para a público, os sentimentos de renovação e descoberta parecem ser os mesmos. O estudante Marcus Vinícius dos Santos, 22, que assistiu ao espetáculo no semestre passado, resume sua admiração com uma frase: “Assistirei de uma próxima vez”. Aliás, só assistindo ao espetáculo para entender o titulo deste texto!

11 de agosto de 2016

Torcedores enfrentam longas filas na Arena Fonte Nova para assistir ao jogo do Brasil

Texto e Fotos: Filipe Alcantara na cobertura das Olimpíadas 2016

Dentro de campo, a seleção brasileira de futebol masculino fez o que ainda não tinha feito nestes Jogos Olímpicos. Após dois empates de zero a zero em Brasília, que rendeu vaias da torcida ao fim das partidas, o time brasileiro jogou ontem à noite em uma Arena Fonte Nova lotada e goleou a Dinamarca por quatro a zero, gols de Gabriel (duas vezes), Gabriel Jesus e Luan. Porém, fora de campo, os mais de 45 mil torcedores que foram ao jogo enfrentaram longas filas. Foi difícil chegar e sair do estádio, comprar bebidas e comida e até ir ao banheiro.

A partida do Brasil começou pontualmente às 22 horas, mas às 19h já tinha bola rolando no gramado baiano. Japão e Suécia duelaram para um público pequeno na Fonte Nova. A arena só lotou minutos antes do início do jogo principal. Por causa disso, os torcedores tiveram que ter paciência para se acomodarem nos assentos marcados em seus ingressos, algo incomum para eles, acostumados com os jogos do Bahia e do Vitória, onde cada torcedor senta na cadeira vazia que ele achar melhor, sem escolha dos assentos.

Engarrafamento no Acesso Norte, próximo ao shopping Bela Vista
A organização das Olimpíadas recomendou que os torcedores usassem o metrô para se deslocarem ao local do jogo. Pelo engarrafamento que tomou conta do Acesso Norte em direção ao shopping Bela Vista no início da noite, parece que a recomendação foi atendida. O estacionamento do shopping ficou abarrotado, mesmo sendo cobrado.

Na bilheteria do metrô, outra multidão se espremia nas filas para comprar a passagem. Quem já tinha o cartão de acesso, passava pelas catracas sem problemas, mas a grande maioria teve que adquirir o bilhete na hora, o que atrasou a chegada ao estádio. No terminal de embarque dos trens, enfim, os torcedores não passaram por aperto. A espera pelo metrô não passava de 5 minutos, o suficiente para atender o grande número de usuários.
Bilheteria da estação Acesso Norte do metrô com muitas filas
Perto do estádio, novas filas testavam a paciência da torcida. Portais de revista da Polícia Militar travavam o fluxo. Os policiais averiguavam as bolsas e mochilas dos espectadores, além de usarem detectores de metais, e só deixavam passar quem estivesse com o ingresso em mãos, o que fez com que a ladeira da Fonte das Pedras virasse outro ponto de aglomeração de pessoas. Nos portões de entrada da Fonte Nova, outras fileiras foram formadas, desta vez para leitura dos códigos dos ingressos, evitando a que portadores de entradas falsas adentrassem na Fonte Nova.

Lá dentro, adivinhem? Mais filas. Os banheiros estavam lotados e os quiosques de venda de alimentos e bebidas, mesmo cobrando preços acima do normal (lata de cerveja a R$ 13, garrafa d’água a R$ 8, por exemplo), também não foram suficientes para atender a alta demanda de torcedores, que precisavam esperar em torno de 30 minutos até serem atendidos no caixa. A estratégia utilizada por alguns deles para escapar da espera foi aguardar a partida começar, quando a maioria dos presentes estava em seus lugares para ver o jogo. Mesmo perdendo minutos do espetáculo, o atendimento realmente foi mais tranquilo.

Mais de 45 mil torcedores lotaram a Fonte Nova para ver a primeira vitória da seleção brasileira nesses Jogos
Se dentro de campo a seleção correspondeu com uma ótima exibição, os serviços prestados pela organização do jogo ficaram muito aquém. Salvador ainda receberá mais dois jogos nesta Olimpíada, amanhã e no sábado, às 16 horas. Dificilmente o público vai ser tão grande quanto o de ontem à noite, mas é bom que os espectadores cheguem cedo à Fonte Nova. Fica a dica.

4 de agosto de 2016

Estreia de Salvador nas Olimpíadas tem muita chuva, estádio vazio e goleada

Texto: Filipe Alcantara na cobertura das Olimpíadas 2016

A Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos só acontece amanhã, às 20 horas, no Maracanã. Porém, tanto ontem, com o futebol feminino, quanto hoje, com o masculino, já houve bola rolando nas 5 cidades fora do Rio de Janeiro que estão sediando partidas da modalidade nas Olimpíadas. Belo Horizonte, Brasília, Manaus, São Paulo e Salvador, a única capital do Nordeste que está recebendo jogos do maior evento esportivo do planeta. A estreia foi nesta quinta, com duas partidas na Fonte Nova.

Na Copa do Mundo de 2014 a capital baiana ficou conhecida por sediar os jogos mais esperados da primeira fase, incluindo grandes potências como Alemanha, França, Espanha, Portugal e Holanda. As seleções não desapontaram e fizeram da Fonte Nova o estádio com a maior média de gols do torneio, o que lhe conferiu a alcunha de “arena das goleadas”. Pelo que aconteceu nos dois jogos de hoje a história tem tudo pra se repetir nessas Olimpíadas.

México e Alemanha, atuais campeões olímpicos e mundiais, respectivamente, e favoritas a brigarem pelo ouro, fizeram uma partida movimentada que terminou em empate de 2 a 2, com destaque para o gol de cabeça do mexicano Oribe Peralta, responsável pelos 2 gols na final olímpica de Londres em 2012, quando o México ganhou o ouro em cima do Brasil, e para Matthias Ginter, zagueiro que é o único do elenco alemão nos Jogos que foi campeão da Copa há dois anos atrás, que também marcou de cabeça na Fonte Nova.
México (de branco) e Alemanha (de preto) duelam na Fonte Nova
O segundo jogo foi entre as seleções de Fiji e Coreia do Sul. Com um público menor em relação à partida anterior, os poucos baianos que permaneceram no estádio viram uma goleada de 8 a 0 para os sul-coreanos, honrando o apelido da Fonte Nova, com direito a 3 gols em 3 minutos. Como manda a tradição “zoeira” dos brasileiros, os torcedores presentes nas arquibancadas resolveram apoiar o time mais fraco, entoando cânticos de incentivo, mesmo sabendo que era muito difícil para Fiji segurar a Coreia (entretanto, o primeiro tempo terminou apenas 1 a 0 para os asiáticos).

O estádio, diferente da Copa do Mundo, não estava cheio. As entradas custaram entre 25 e 100 reais e permitiam assistir aos dois jogos, o primeiro iniciado às 17h e o outro às 20h. A forte chuva que caiu nesta tarde em Salvador talvez tenha afastado os torcedores, que tinham duas opções para chegar à Fonte Nova: linhas de ônibus exclusivas para portadores de ingressos que saíam dos principais shoppings centers da capital; e o metrô, que tem paradas em duas estações próximas ao estádio. Carros, motos e outros veículos não puderam atravessar as barreiras de trânsito impostas no entorno do estádio.

O médico Renato Maurício deixou seu carro estacionado em um shopping e foi de metrô para o jogo. Torcedor do Bahia e com presença frequente na Fonte Nova, ele não quis ficar de fora da primeira Olimpíada realizada na América do Sul. “Essa mística dos Jogos Olímpicos me atraiu. Se aqui em Salvador tivesse outros esportes, eu iria vê-los também. Considerando que só tem futebol, quero aproveitar a chance única de ver esse evento no país, e também o fato do Brasil não ter ganho o ouro no futebol”, conta Renato.

Já o estudante Daniel Barros, 25 anos, faltou à faculdade para prestigiar as partidas. “Comprei esses ingressos antes do sorteio, sem saber quais seleções jogariam aqui. Como sou viciado em futebol, amo esse esporte, não poderia deixar de acompanhar de perto os jogos, apesar de não ter vindo nenhum craque. Até vou ficar para ver Fiji e Coreia do Sul, pra você ver como sou vidrado em futebol”, nos declarou o estudante na chegada ao estádio. Os dois apaixonados pelo esporte prometeram ainda ir para outros jogos. Até o dia 13 de agosto, eles terão algumas oportunidades. Confira abaixo as partidas restantes em Salvador:


·   07 de agosto (domingo) - MASCULINO
13h - Fiji x México
16h - Alemanha x Coreia do Sul

09 de agosto (terça-feira) - FEMININO
16h - Austrália x Zimbábue
19h - Nova Zelândia x França

· 10 de agosto (quarta-feira) - MASCULINO
19h - Japão x Suécia
22h - Brasil x Dinamarca

·12 de agosto (sexta-feira) - FEMININO (QUARTAS-DE-FINAL)
16h - 2º do grupo E x 2º do grupo F

·13 de agosto (sábado) - MASCULINO (QUARTAS-DE-FINAL)
16h - 1º do grupo B x 2º do grupo A

30 de junho de 2016

FALA POVO! Animais domésticos em transportes coletivos divide opiniões

A prefeitura de Salvador autorizou, desde o última dia 08, a entrada de animais domésticos em transportes coletivos da cidade, desde que sejam respeitadas algumas regras.

Confira no vídeo abaixo que regras são essas e como a medida ainda divide opinião dos soteropolitanos. A reportagem é de Caroline Rodrigues.


Alto preço do feijão incomoda consumidores

Início de mês chegando, hora de ir ao supermercado fazer as compras e se surpreender mais uma vez com os valores dos alimentos. Nas últimas semanas, a alta no preço do feijão, que está presente nas mesas de 10 entre 10 famílias brasileiras, virou assunto nacional e gerou até memes bem humorados nas redes sociais.

O repórter Newton Soares foi às ruas conferir o que a população tem feito para driblar a inflação do feijão. Confira no vídeo abaixo.

25 de junho de 2016

Jazz em cores e formas

Exposição de Henri Matisse pela primeira vez em Salvador


Texto: Darcicléia Oliveira

Está em cartaz, na Caixa Cultural de Salvador, até 03 de julho, a mostra “Jazz”, que reúne obras do livro de imagens produzido pelo pintor, desenhista e escultor francês Henri Matisse (1869-1954). A exposição comporta 20 pranchas originais impressas com a técnica au pochoir (em francês) que significa estêncil. Matisse foi um dos grandes artistas modernistas do século XX juntamente com Picasso. A entrada é gratuita, de terça a domingo, das 9h às 18.
Foto: Divulgação
O livro Jazz foi publicado em 1947 e teve 250 impressões, das quais apenas duas estão no Brasil. Uma na Pinacoteca de São Paulo e outra no Museu da Chácara do Céu no Rio de Janeiro. As obras, expostas em Salvador pela primeira vez, pertencem ao exemplar 196, que integra o acervo do Rio de Janeiro.

As pinturas, feitas de recortes de papel previamente colorido de guache, têm agradado. A estudante de jornalismo da Faculdade Social da Bahia, Kaliandra Larissa Santos, 28, visitou a exposição e confessa ter atendido às suas expectativas. “Achei sensacional. Aprendi ainda mais sobre Matisse, sua arte, suas linhas, traços marcantes,a simplicidade e originalidade”, comenta.

De acordo com a curadora da exposição, Anna Paola Baptista, Matisse foi um dos principais expoentes do fauvismo, que também é chamado de fovismo, que significa “as feras”. Este e outros movimentos modernistas “ajudou a naturalizar a ideia de que a arte não precisava ser a imitação da natureza”, conta Anna Paola. Ainda assim, ela explica que sua pesquisa foi constante ao longo da carreira e o levou a vários desenvolvimentos. “No caso do fauvismo, trouxe a ênfase na cor anti-naturalista. A exposição de seu Álbum Jazz mostra isso de forma contundente apresentando uma fase tardia em que trabalhou a técnica dos recortes”, sustenta a curadora. Já para o professor de História da Arte da UFBA, Luiz Alberto Ribeiro Freire, “a expressão plástica inconfundível [de Matisse] o destaca entre os demais do seu tempo. As cores primárias, utilizadas em suas pinturas, contrastam entre si e vibram em uma harmonia jamais pensada antes”, analisa.

Um contratempo e a descoberta da paixão pela pintura

A paixão de Matisse pela arte começou quando, doente, se viu obrigado a ficar na cama e boa parte do tempo na cadeira de rodas para se recuperar, não podendo exercer outras atividades. Por conta disso, recebeu de presente de sua mãe materiais para pintura. O artista, inicialmente, dedicou-se ao desenho e à ilustração e, depois, foi descobrindo novas formas de criar seus quadros, como a técnica da colagem de papeis recortados e previamente pintados com tinta guache.

Foi durante o período de recuperação que Matisse criou o livro de colagens “Jazz”, quase denominado de “Circo”, por causa da presença de elementos circenses como o Palhaço, o Atirador de facas e o Engolidor de espadas. Mas o artista escolheu “Jazz”, devido ao ritmo das imagens, que se identifica com esse gênero musical. O jazz, na época, referenciava a cultura norte americana associada aos valores do moderno.

As imagens de Jazz personificam a própria linguagem da modernidade: o vibrante das cores e o irreprodutível. Baseadas no ritmo e na improvisação, nas cores vivas e vertiginosas a serviço da emoção e do movimento, as obras fazem de Matisse um dos ícones da arte do século XX.

De acordo com o professor Freire, Matisse e Picasso pertenceram a uma geração de artistas que pesquisaram e experimentaram novas formulações e marcaram um distanciamento da repetição da realidade. Os dois artistas não precisavam de tantos traços e sombras e não excederam na perspectiva para representar uma figura ou uma cena. A curadora da exposição Anna Paola Baptista vê Picasso como um artista mais cerebral e Matisse mais visceral. “A cor era o ponto focal para a arte de Matisse, enquanto que para Picasso as pesquisas relacionadas ao plano e a perspectiva eram mais fortes”, explica.

Freire enfatiza a diferença entre os dois “Matisse privilegiou a cor, utilizou-se das cores puras, chapadas e aprendeu com a gravura japonesa a dar importância aos fundos, inclusive para tirar partido do decorativismo. Ele afirmou o óbvio, ou seja, que a pintura é bidimensional. Picasso, no primeiro momento, analisou o objeto e o representou fragmentado, a partir de vários ângulos”, afirma o professor.

Matisse para formar platéia: a história pela arte

As pinturas da exposição Jazz, feitas de recortes de papel previamente coloridos de guache, têm agradado principalmente as crianças. Pais e escolas levam a garotada para aprenderem mais sobre arte e até se divertirem com as histórias contadas pelos guias. Cerca de 35 alunos da Escola Municipal Julieta Calmon, na Boca do Rio visitaram as exposições na Caixa Cultural. Para a coordenadora pedagógica da instituição, Sara Galvão, o contato com a arte, ainda na infância, é transformador. “Essas visitas a exposições contribui para a troca de informação e futuramente até para que eles se identifiquem com a arte, se interessem pela vida artística e despertem os artistas dentro de si”, pondera.

Segundo Sara, as escolas têm um papel fundamental para inserir o aluno ao entendimento da arte e da história. “Com essas iniciativas, os alunos crescem com o sentimento valorativo da arte e aprendem a importância dessas visitas em museus e salões de exposição temporárias, como é o caso da Caixa Cultural que sempre está trazendo exposições novas a Salvador”, explica.

A curadora Anna Paola acredita que a arte sirva para mostrar o lado mais rico do ser humano e sua capacidade de criação. “Uma criação que não se vincula às necessidades de sobrevivência física da espécie. A história da arte vem para nos fazer refletir como isso se deu ao longo do tempo”, revela.

Freire comenta sobre a importância da arte na contemporaneidade. “A arte é expressão da cultura e também uma expressão individual de um ser humano que pretende se comunicar com recursos vários, que vão do desenho à apropriação de coisas existentes e à ressignificação delas”, esclarece. Ele ainda destaca que “a vida com arte é uma vida de maior qualidade, é vida sensível, estética e intelectualmente estimulada”.

Kaliandra que também é poetiza e está inserida nesse mundo artístico destaca que a arte em si permite fugir de regras e padrões, além de viajar em mundos distantes. “Proporciona diversos sentimentos e emoções, além de contar histórias incríveis. Ela realmente tem representatividade e pode se fazer presente em tudo que vivemos”, finaliza.